Vanda diz ser pega para Cristo

6 set 2013

1Os olhos marejados, a voz embargada e a vontade de deixar tudo para trás. No retorno do Mundial de Moscou, Vanda Gomes foi a primeira a desembarcar em São Paulo. Diante de um batalhão de jornalistas, afirmou não ter o que dizer. Mas, pressionada, voltou a desabafar. Quis esclarecer que as críticas à Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) foram mal-interpretadas. Reforçou, porém, que, antes da principal competição do ano, os treinos foram insuficientes. E, apontada como a culpada pela queda do bastão na reta final da disputa por medalhas no revezamento 4x100m, reclamou de ser sempre “pega para Cristo” no momento da falha.

O desabafo, no entanto, parece ser individual. Na volta ao Brasil, Ana Claudia Lemos, outra integrante da equipe, deixou claro o racha entre as meninas. Assim como Rosângela dos Santos, que expôs a insatisfação com Vanda por não assumir o erro em Moscou, a velocista afirmou que a companheira “não faz parte da equipe”. Apenas Ana Claudia e Evelyn dos Santos, que abriu o revezamento no domingo, deixaram o aeroporto juntas em Guarulhos.
atletismo Vanda Gomes desembarque (Foto: João Gabriel)Vanda Gomes desembarcou em Guarulhos com os olhos marejados (Foto: João Gabriel)

Ao deixar a pista no Mundial, Vanda fez críticas à CBAt e ao técnico da equipe, Katsuhico Nakaya, que seguiu na Europa. A entidade blindou o treinador e rebateu a atleta. Na chegada, a velocista admitiu o erro, mas reclamou e afirmou ser sempre apontada como culpada, assim como Franciela Krasucki.

– Lógico que vão rolar farpas. Eu não quero ter polêmica, é a última vez que estou falando disso. Em Daegu, éramos para termos sido medalha também. A Ucrânia foi bronze e nós havíamos vencido elas um mês antes. Mas, agora, como sempre, pareço ter sido pega para Cristo… Eu reconheço meu erro, mas não é só meu. Não é só da Fran. É do grupo. Todas as vezes sobra para mim e para a Fran. Apesar de eu ter falado algumas coisas, eu e a Fran ainda temos a cabeça mais fria, conseguimos absorver algumas coisas. Nakaya fica nos trocando de posição para amenizar algumas coisas. Eu estou me sentindo injustiçada por isso – afirmou Vanda.

Ana Claudia, por outro lado, rebateu. A velocista afirma que a companheira de revezamento se mostra fora do time. Durante todo o momento, deixou a mágoa evidente. E tentou evitar falar de Vanda, à mesma medida que elogiava as outras integrantes.

– Eu não tenho muito o que falar dela. Nós fizemos o trabalho que tínhamos de fazer. Cada um responde por si próprio. Sim (faltou humildade para reconhecer o erro), mas não é uma coisa que diz respeito a mim. Rose (Rosângela) é uma pessoa sensacional, faz parte do time, sempre ajuda a gente. E torço para que ela volte bem. Nós somos um time, as pessoas são iguais. Eu prefiro falar de mim. Sobre os outros, não posso falar. Eu fiz o meu papel, fiz bem feito. O que eu podia correr, eu corri. (…) Eu acho que a Franciela é uma excelente atleta, só ver os resultados do ano. Da outra, eu não tenho o que comentar. Um time a gente considera quando é unido. Ela não é unida com a gente. Então, não tenho o que falar dela. Falo de mim, das pessoas que considero, que tenho admiração. Não vou falar que somos melhores amigas, eu e Franciela. Mas temos respeito uma pela outra. Na hora do time, a gente é time. (…) Venho fazendo minha parte. Conversamos eu, Evelyn e Franciela. Estamos unidas, com mais força. Vamos continuar treinando e representando o Brasil.

Franciela preferiu ser mais política. Sem entrar na discussão, porém, a velocista, que passou o bastão para Vanda no último domingo, afirmou não ter faltado treino antes do Mundial.

– Batemos o recorde sul-americano (na semifinal). Treinamos um pouco menos, mas dizer que faltou treino, eu acho que não. Batemos o recorde sul-americano, as duas primeiras passagens foram muito boas. Tivemos um azar do bastão cair, coisa que nunca aconteceu. Alguns dias eram um pouco mais difíceis, mas eu não passei fome, não passei mal. Às vezes, a opinião dela não é de todo mundo. Não posso dizer que ela está errada. Foi o que ela sentiu. Está todo mundo chateado com o que aconteceu. Se faltou humildade, não sei. Mas está todo mundo muito chateado.

Vanda, por sua vez, rebateu as críticas de Rosângela, que acusou falta de humildade da companheira. Para ela, a queda do bastão foi um acidente que poderia ter acontecido com qualquer uma das outras integrantes.

– Nunca apontamos o dedo para nenhuma delas. E apontaram para mim, disseram que é inadmissível o erro. Quem disse não é ser humano. Não é falta de humildade. Foi um acidente. Nem eu nem a Fran queríamos que o bastão caísse. Foi um acidente. Caiu. Eu entrei 100% na prova. Fizemos um teste, eu e a Rosângela, no qual eu fui melhor. Eu abri mão na semifinal para que ela também pudesse participar da prova, fazer parte da vitória. Poderia ter acontecido com ela, com qualquer pessoa.

Ana Claudia acredita ter faltado frieza no fim da prova. E, com ironias, voltou a criticar Vanda.

– Até os 300m, estávamos com a medalha de prata. Infelizmente, não poderia correr 100m a mais para fechar a prova. Nem a Evelyn, nem a Franciela. Nós ficamos sentidas porque ficamos 40 dias fora, deixamos noivo, namorado aqui por um objetivo. E, na final, não pode dar errado. Você se planeja anos para isso, um ciclo olímpico. Nessas horas, você tem de ter frieza, amadurecimento. Bate a revolta, mas ela não vai me dar minha medalha. Preciso descansar, rever o foco.

Rosângela dos Santos não desembarcou junto com o restante da delegação, a atleta chegou ao país nesta segunda-feira e afirmou que a troca com Vanda era prevista, mas não deixou de criticar a companheira de equipe.